Inteligência artificial e relações humanas dão o tom do Web Summit 2017

Paulo Martinez, COO da Ginga, esteve no evento em Lisboa e separou os principais acontecimentos diretamente do Web Summit.

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Estive em Lisboa para o Web Summit, um dos maiores eventos de inovação, tecnologia e empreendedorismo do mundo. Foram cerca de 60 mil participantes de 170 países, sendo 1.200 palestrantes que, em um clima frenético, se espalharam em 4 pavilhões e 1 arena principal durante 4 dias.

Na noite de abertura, uma surpresa: o cientista Stephen Hawking - umas das mentes mais brilhantes da nossa era - tomou o palco principal, em video, com algumas colocações importantes:

"Nós não conseguimos prever o que podemos alcançar quando as nossas mentes são ampliadas pela Inteligência Artificial. Talvez com as ferramentas desta nova revolução tecnológica nós consigamos corrigir alguns dos danos causados ao mundo pela industrialização. Nós vamos finalmente erradicar doenças e a pobreza. Todos os aspectos da nossa vida mudarão”.

E assim, explorando o olhar da tecnologia x ética, seguiu: “Eu sou um otimista e acredito que podemos criar Inteligência Artificial para o bem do mundo, que ela pode funcionar em harmonia conosco”. Temos então uma grande lição de casa a fazer para que possamos atingir o nosso potencial e criar um mundo melhor para toda a raça humana. O professor concluiu que “a inteligência artificial pode ser o melhor ou o pior acontecimento para a humanidade”.

Assim se iniciou o evento, invadido por temas relacionados, ora de forma direta ora indireta, a um mundo não tão distante, sustentado por inteligência artificial e machine learning.

A seguir algumas das principais tendências que eu pude acompanhar neste Web Summit 2017:

Realidade Virtual vai se tornar parte do dia-a-dia das pessoas.

Amit Singh, chefe do Google VR, falou sobre como a realidade virtual vai ganhar cada vez mais adeptos, em um mercado trilionário. Apontou como principais usos as experiências de videos imersivos onde se pode conhecer qualquer lugar do mundo; além de experiências de entretenimento como em eventos de educação, shows e esportes.

Também comentou como a realidade aumentada pode ganhar escala exponencial de usuários com a melhoria do hardware em smartphones Android, atualmente já saindo de fábrica com a tecnologia AR Core. “É algo para estar em todos os smartphones Android nos próximos dois anos”, comentou.

Existe um layer cibernético nas guerras e conflitos do nosso planeta, que não pode ser ignorado.

Jared Cohen, CEO da Jigsaw (empresa de cyber segurança da Alphabet), falou sobre como se dão as cyber guerras e como fazer para preveni-las. Em uma pauta bem atual, Cohen diz, por exemplo, que as fake news tornaram-se uma forma moderna de cyber guerra, utilizadas para vários propósitos.

A maior proporção de dispositivos conectados e a melhora significativa na velocidade de conexão tornam o cenário perfeito para investidas maléficas. O executivo destacou que a internet é um único sistema internacional, o que torna os desafios ainda maiores. Acredita que no futuro todas as guerras vão começar digitalmente, começando pelo hacking de infraestruturas. “Como a sociedade irá manter a estabilidade dos Estados se a estabilidade digital cair?”, indaga.

Reforça que os governos não estão preparados para responder ou regular investidas de ataques cibernéticos, onde não há medidas regulatórias e há várias nações envolvidas. Para prevenir a próxima “grande guerra”, sugere que governos e sociedade devem se envolver, em campanhas de cyber higiene, educando as pessoas a se protegerem melhor, além de promoverem campanhas de conteúdo e publicidade informativa para evitar que jovens se associem a causas extremistas.

Temos tempo de pensar e construir a nova sociedade, mas devemos começar desde já.

Max Tegmark, físico e pesquisador do MIT, autor do livro Life 3.0, iniciou a sua apresentação em um tom mais otimista, mostrando diversos exemplos de como a tecnologia pode realizar tarefas de forma mais rápida e inteligente que nós humanos, mas evidenciando que há espaço para controle dos riscos, com foco no bem que a tecnologia pode trazer por décadas e séculos a seguir. Para tanto, apresentou o Future Life Institute e seus 23 princípios, e resumiu 4 principais iniciativas que considera fundamental nesta jornada de longo prazo: (1) Banir armas letais automáticas (como as abelhas drone de black mirror), (2) garantir que a riqueza gerada por inteligência artificial contribua para um mundo melhor, (3) investir em pesquisa sobre segurança em inteligência artificial e, (4) pensar e planejar o tipo de futuro que queremos.

Robôs humanizados passarão a fazer parte da nossa vida.

Foi o que mostrou Ben Goertzel, cientista chefe na Hanson Robotics. Mais com cara de show, foi possívei ter um gostinho de como serão os nossos companheiros robôs humanóides em uma conversa cheia de indagações, entre Sophia the Robot e o Professor Einstein Robot. Para mim, a frase mais contundente desta sessão veio de Sophia: “As pessoas têm medo da Inteligência Artificial porque elas têm medo de si mesma”.

Comunicadores demonstram fé na humanização e apostam todas as fichas na criatividade, nas relações e em bons conteúdos.

O Web Summit teve também uma pauta extensa sobre publicidade, marketing digital e conteúdo.

Pude acompanhar algumas destas sessões com publicitários e marketeiros renomados como Bob Greenberg (R/GA), John Hegarty (BBH), Susan Credle (FCB), Nick Law (R/GA), Lars Silberbauer (Lego) e Phil Gilbert (IBM). Todos foram categóricos no resgate das relações humanas como elemento fundamental para o futuro, independente da evolução tecnológica. Acreditam que relações e criatividade continuarão a fazer parte dos mercados de trabalho e também da cultura social.

Na esfera dos publishers, a crítica ao monopólio de Google e Facebook foi contundente. Representantes de veículos como CNN, The Guardian e The Times expuseram preocupação com a distribuição digital dominada pelos dois players e seus algoritmos obscuros, além de assumirem que precisam pensar em novos modelos de negócios que não dependam somente de publicidade. Muito se falou na criação de um modelo de assinatura universal, uma espécie de Spotify das notícias. Também foi consenso entre todos que o conteúdo está comoditizado e que para as pessoas pagarem por conteúdo precisam de algo original, um olhar diferenciado e entregue com uma experiência superior, ad free. Meredith Artley, editora chefe da CNN Digital resumiu: “We must break the news instead of focus on breaking news”.

Dados são o novo petróleo, e Inteligência Artificial é movida a este combustível.

O CEO da Intel, Brian Krzanich, foi a fundo no tema da interseção de dados com inteligência artificial, demonstrando seus mais recentes projetos. Na demonstração da Movidius, solução de machine learning da empresa, mostrou a sua aplicação em drones no oceano para a identificação de tubarões e salvamento em caso de afogamentos. Também apresentou o projeto de veículo autónomo da Ford (powered by Intel) que comporta um elevado grau de tomada de decisões que, segundo o executivo, superam o nível de autonomia presente nos carros atuais. Além de outros projetos, a Intel exibiu ainda a capacidade dos sistemas de inteligência artificial no reconhecimento de faces em casos de tráfico sexual de menores, transpondo barreiras como a mudança de tons de cor, cabelo e a consequente alteração de idade na identificação, localização e resgate das mesmas.

Precisamos repensar a mobilidade urbana de forma radical.

O CEO da Waymo, John Krafcik, trouxe alguns números interessantes do mercado americano que embasam os projetos da empresa, anteriormente conhecida como Google Self Driving Car. "Em 95% do tempo os carros não são usados. Pelos menos nos EUA 60% das viagens de carro são de 2 km ou menos. Ou seja, uma pequena frota de carros pode garantir a mobilidade de uma pequena cidade.”

O Uber aposta não só em veículos autônomos (inclusive foi processado pela Waymo por isso), mas acredita também que devemos explorar melhor as viagens aéreas nos grandes centros urbanos. Para isso apresentou o UberAir, um veículo feito sob medida, totalmente elétrico, que é um misto entre um carro e um helicóptero. Jeff Holden, Chief Product Officer do Uber, afirmou que a solução será acessível: “Vamos baixar tanto o preço da viagem que será mais barato do que ter um carro. Dirigir passará a ser um hobby”. A empresa anunciou parcerias com diversas empresas para viabilizar o projeto, entre elas a brasileira Embraer (para componentes) e a NASA (para controle de tráfego aéreo), tendo como meta o lançamento do projeto em Los Angeles até 2020.

Outras duas startups chamaram a atenção com soluções de mobilidade urbana, mais simples, pautadas em duas rodas. Uma é a Ofo, startup chinesa de bike sharing, que possui cerca de 100 milhões de usuários em 180 países e já vale mais de USD 1 bi. A outra é a Gogoro, que também aposta no mercado chinês, sendo a “Tesla das scooters”, totalmente elétricas e com centros de recarga espalhados pelas cidades.

As interfaces em voz vão dominar as interações entre homem e máquinas.

Esta foi a pauta da sessão apresentada pelo CTO da Amazon, Werner Vogels, reforçando que a conversa é a forma mais natural de interação do ser humano. “Temos de começar a construir interfaces humanas nos computadores”, afirmou. Mostrou alguns números onde a pesquisa por voz vai ultrapassar a busca tradicional até 2020. O executivo também demonstrou que toda a tecnologia de Inteligência Artificial por trás da Alexa está na nuvem, e não no hardware, e como qualquer desenvolvedor pode se conectar a este sistema para desenvolver soluções de voz pautadas em inteligência artificial e machine learning.

Copo meio vazio ou copo meio cheio. De que lado você está?

Ficou claro que, nas próximas décadas, a inteligência artificial formará a base estrutural da nossa sociedade, onde não só as coisas estarão conectadas à internet, mas também nós, seres humanos, faremos parte deste ecossistema, com implantes feitos diretamente em nossos corpos, além de novas tecnologias que nos permitirão viver mais de 100 anos. Talvez as viagens à Lua ou a Marte para exploração e turismo se tornem corriqueiras.

E sim, muitos empregos serão extintos, contudo, inúmeros serão criados. A figura de empregado x empregador também foi muito debatida, vamos viver a era dos “eupreendedores”. O trabalho que será feito por máquinas dará espaço ao trabalho intelectual e criativo. Há a oportunidade de termos mais tempo e qualidade de vida para criar uma sociedade ainda melhor.

O Web Summit deste ano teve o cuidado de trazer discussões humanas e questões sociais em contraponto com as sessões puramente tecnológicas. Houve a presença contundente de líderes de estado juntando-se aos jornalistas e tecnólogos.

Com certeza há de se ter cuidado com o uso que faremos das novas tecnologias, mas não podemos perder a esperança em criar uma sociedade melhor, usufruindo de todos os recursos que teremos a disposição. Estou com o professor Stephen Hawking, também sou um otimista.

 

Paulo Martinez é Chief Operating Officer da Agência Ginga